comptine d'un autre été


Os discursos directos cingem-se todos pelas mesmas leis e regras de gramática, ou sintaxe, ou o que for, interpõem-se entre vírgulas, travessões e parágrafos e fazem-se ouvir pelo costume do diálogo. Porém, hoje o meu discurso directo não tem nenhum desses paradigmas a servir de guia, nem sequer é um diálogo. Falo para mim, a mim escuto:
Pensar o tempo é experimentar uma sensação de vazio enorme, é pensar nada,  porque pensar o tempo não é como pensar a realidade, a liberdade ou outro conceito abstracto qualquer que tratamos de uma forma particular enquanto descobrimos tantas respostas para estes problemas, que não chegam a ser nenhumas: reflectir sobre o tempo é um mero capricho sem qualquer finalidade prática, uma vaidade da razão humana, que concebe conceitos, os gera no seu ventre durante uma infinidade para depois, quando finalmente os brotar no seio da Vida, os esquartejar, moendo-se, enfim, a própria razão em procuras vãs para as dúvidas que inventa (cada nova ideia é uma eventual facada na pouca sanidade que possui).   
Pensar o tempo é também perceber que, embora construído ciclo sob ciclo, os ciclos não se repetem: caminhamos ao longo de argolas abertas, compostas sob a forma de uma espiral, ou de uma hélice, vivendo a doce ilusão de que voltaremos ao ponto onde iniciámos a nossa jornada.
E quando concluímos que nos afastamos, aos círculos por fechar, do que vivemos segundo a segundo, e que  não podemos tocar no mesmo instante duas, ou três, ou quatro vezes, à nossa frente uma parede monstruosamente prostrada avança ao ritmo dos nossos passos, não nos permitindo respirar o futuro com a sofreguidão que almejamos – é então que uma terrível sensação claustrofóbica dá ares da sua graça e percebemos que o que guardamos do passado são apenas fotografias de má qualidade; não esperávamos perdê-lo de forma tão abrupta.


Pensar o tempo é uma catarse bélica, e hoje estou em pleno campo de batalha, purgando-me enquanto procuro metáforas para o enfrentar.

28 de Junho de 2010


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It’s against the law this kind of life.
Tiguana Bibles

Comentários

Pickles disse…
O presente acaba sempre por matar o passado e iludir o futuro, como dizes, não penses no tempo, é futilmente angustiante. Mas continua a ser giro.
Já agora, gosto muito das ovelhinhas lá em cima.
E obrigado pelas recomendações, ando a precisar de me ocupar agora nas férias e calham bem ^^

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